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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CURRAIS



Para Carmelina e Álvaro

 Só comigo em uma noite brisa de verão, estrelas no céu e o cruzeiro do sul no topo da minha cabeça, na cadeira do terraço, chá verde substituindo uma vontade persistente dos velhos cigarros, ou charutos, não é mais hora de mate; antes na moto rodei até a beira da praia, claro, pois como os antigos cigarros, ou charutos, ou a cerveja, era preciso trazer a Barra do Chuí pras minhas saudades de só, apenas porque é noite, quando me vem o cheiro dos cedros da “escadinha”, por isso inda agorinha podei, assim num sem ter o que fazer, os verdes do nosso percolado novo, que agora tem mesa de pedra com banquinhos, presente da amada; mas é noite, tem até a rede no terraço, podia pegar o violão, podia dedilhar as minhas mesmices de sempre, velhas desde as noites da Barra, vivíssima “en mis adentros”, sou sobrevivente, como alguns poucos daquela geração perdida. Perdida em sete-e-meios, em pif´s, nas rulas uruguaias, em patas-de-cavalo, em tangos madrugada a dentro, em bebedeiras irresponsáveis duma infância perigosa e interminável, não se tinha vontade de mais nada além de Santa Vitória, a campanha, as nortenhas do Chuí, a Boate do Zeca, os bailes da Barra Uruguaia, as gurias da imensidão que ia das fortalezas até o Rio Grande, no máximo! Até que não sei que milongas o mundo de fora apareceu, assim do nada, com o arroz e a estrada, os DKV Candangos e uma gente diferente, estrangeira, uns que chiavam diferente até dos pelotenses, que já era algo assim por demais de se aceitar e tinham palavras novas e tudo se foi indo de repente, os currais arrombados, o mais grave: as gurias acharam novos heróis e gostaram e então porque não partir também, as cidades enormes, por mais enormes que fossem, e eram, e são, jamais tiveram a poesia da Barra antes das invasões bárbaras, tudo ficou misturado, ganhos e perdas e no frigir dos ovos fiquei com esse saber-compromisso dessa brisa única que agora está só aqui no meu peito. Mas tem uns ainda que entendem, lá a moda de cada um, que são reminiscentes daqueles currais dentro do grande, do curral maior das lagoas e do mar, até a fronteira, limite. Tinha aquela passagem do Taim, bem, passagem mesmo não tinha, mas sempre dava pra desviar, conforme o tempo, pela costa da lagoa; pela costa do mar, é claro, mas o perigo sempre rondava se a maré subisse até os cômoros. O mar, pelo menos, é o mesmo. Aqui em Santa Catarina, quem é pescador sabe sempre do que falo, dos bancos de areia daquele mar brabo, sem curvas, e o grande farol vermelho, o último do território brasileiro. Eu escrevo bobagens, pois poucos que ainda existem, uns que saíram e voltaram, outros que nunca saíram e eu que fiquei por longe, mas mesmo longe, nesse brete dos currais que não tem porteira, parece.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fazer poemas

Fazer poemas?
           como se fosse fácil!
Rimas,
sonoridades,
buscar as palavras certas
ao expressar emoções.

É um labor delicioso,
que faz de alguém um poeta,
escritor ou leitor atento,
numa ou outra ocasião.

Quem é o melhor poeta?
Aquele que escreve o fato,
registrando o amor ou a dor,
ou quem captura o texto,
levando o seu coração
como um alvo que se antecipa,
e acerta a flecha ainda hirta
bem antes da exploxão?

Todos somos poetas,
embora alguns nos surpreendam,
tamanha sua expressão,
ao dominarem palavras,
qual danças de belas formas,
mostrando que somos deuses,
filhos especialíssimos,
do Pai ou do Creador.